Fábio Osório Monteiro circula com sua “Bola de Fogo” em quilombos brasileiros

Artista há mais de 25 anos, o soteropolitano Fábio Osório Monteiro é também baiana de acarajé, registrado na Associação Nacional das Baianas de Acarajé, Mingau, Receptivo e Similares (ABAM). Unindo estas duas facetas, que expressam sua existência enquanto homem negro, nordestino, candomblecista e homossexual, ele criou “Bola de Fogo”, estreada em 2017: uma performance em que, devidamente trajado, monta seu tabuleiro de baiana, bate a massa do acarajé e frita os bolinhos, oferecendo, junto à comida, suas histórias, sua dança, seus afetos. A obra já foi apresentada em diversas localidades e contextos do Brasil e no exterior e agora faz um movimento de retorno à própria origem, no projeto “Circuito de Fogo – Das Ruas aos Quilombos”, que propõe uma circulação por territórios quilombolas brasileiros, de julho a novembro: Quilombo do Rosário (Pará), Quilombo Mesquita (Goiás), Assentamento da Boa Esperança (Piauí), Quilombo Muquém Serra da Barriga (Alagoas) e Quilombo Quingoma (Bahia).

“A materialização deste processo de aquilombamento nasce do desejo de projetar futuros possíveis revisitando o passado. Aquilombamento é o movimento de buscar o quilombo, formar o quilombo, tornar-se quilombo. Ou seja, aquilombar-se é o ato de assumir uma posição de resistência contra-hegemônica a partir de um corpo político, reconhecer e proteger a herança cultural única das comunidades quilombolas, incluindo tradições, línguas, danças e práticas religiosas”, contextualiza Fábio Osório Monteiro.

Humor, política, sociedade, espiritualidade e memória se cruzam em “Bola de Fogo”, que aborda temas como ancestralidade e questões ligadas ao corpo negro, compartilhando pensamentos de um artista que resiste às dificuldades da profissão e trazendo à tona a discussão sobre a sustentabilidade do trabalho do artista brasileiro. A narrativa atravessa os mitos e itãs de matrizes africanas junto a passagens autobiográficas: Osório narra a si próprio e a outros corpos como os dele, através do movimento e da oralidade – meio pelo qual a cultura afro-brasileira e as religiões de matrizes africanas se perpetuaram ao longo do tempo.

O acarajé, alimento sagrado, legado da diáspora africana e da insurgência negra no Brasil, ali se materializa como símbolo de emancipação, criação, oferenda e vínculo, para alimentar a alma de dendê e resistência. “No candomblé, aprendi que coisas duras podem ser ditas com uma colher de mel na boca”, observa Fábio Osório Monteiro, que performa e assina a direção, com codireção de Leonardo França e cena partilhada com Cíntia Santos – intérprete de Libras em atuação efetiva, que, além de traduzir o português para a inclusão da população surda, também transforma texto em movimento repleto de significado.

“Bola de Fogo” faz então um movimento ao encontro de comunidades que encampam a ancestralidade, a decolonidade e a resistência como tecnologias de existência, abrindo caminhos para as lutas e conquistas históricas do povo negro brasileiro. As temporadas nos quilombos não apenas incluem apresentação da obra, mas também preveem práticas de trocas e convívio, numa partilha de experiências criativas e de vida.

A articulação com estas comunidades tradicionais partiu do entendimento das suas relevâncias históricas e culturais, da importância de suas atuações políticas e sociais, bem como do impacto em seus territórios, em âmbito local, regional e nacional. Representantes das próprias comunidades realizarão a função comumente designada a um produtor local, para estabelecer trocas de saberes entre diferentes lógicas de pensar produtividade e coletividade.

A equipe de “Circuito de Fogo – Das Ruas aos Quilombos” se completa com Gabriel Pedreira e Natália Valério (produtores), André Martins (coordenador técnico), Evanildes Cruz (auxiliar de cozinha) e a ativista quilombola e líder do Quilombo Quingoma Rejane Pereira Rodrigues, responsável por toda a articulação com os territórios quilombolas que acolherão o projeto.

“Circuito de Fogo – Das Ruas aos Quilombos” integra a programação do Circuito Funarte de Dança Klauss Vianna 2023, parte do Programa Funarte de Difusão Nacional, promovido pela Fundação Nacional de Artes (Funarte), vinculada ao Ministério da Cultura (MinC).

“Circuito de Fogo – Das Ruas aos Quilombos”

·         Quilombo do Rosário – Salvaterra (Pará): 30/07 a 02/08

·         Quilombo Mesquita – Cidade Ocidental (Goiás): 15 a 19/10

·         Assentamento da Boa Esperança – Teresina (Piauí): 29/10 a 02/11

·         Quilombo Muquém Serra da Barriga – União dos Palmares (Alagoas): 15 e 16/11

·         Quilombo Quingoma – Lauro de Freitas (Bahia): 26 a 30/11