Da cena carioca à capital baiana, espetáculo “Orúkọ” reivindica a ancestralidade e o direito de existir com voz, nome e história

Com apresentação única no Teatro Gregório de Mattos na quarta-feira (23), espetáculo integra o Festival IYÁS e conta com oficina e mesa de conversa

“Orúkọ é UBUNTU. É ter consciência de que todos aqueles que vieram antes de mim não lutaram em vão” , destaca Hilda Maretta, atriz e idealizadora do espetáculo “Orúkọ”, que reflete sobre a ancestralidade diante do apagamento histórico das narrativas negras no Brasil. Depois de emocionar o público no Rio de Janeiro, a montagem chega a Salvador, nesta quarta (23), às 15h, no Teatro Gregório de Mattos, como parte da programação do Festival IYÁS – Festival de Arte de Mulheres Negras. Ingressos disponíveis por R$ 20 (inteira) e R$ 10 (meia).

Além da apresentação teatral, Hilda participa de outras atividades dentro do festival: na quarta (23), às 8h, ministra o workshop “SER SUBSTANTIVO PRÓPRIO”, com foco no contato de histórias a partir de uma perspectiva afrocentrada e das raízes pessoais dos participantes. Já na quinta (24), às 14h, ela integra a mesa “Poéticas e Estéticas de Mulheres Negras”, onde compartilhará sua visão sobre o lugar da artista preta no teatro contemporâneo, sua formação como atriz e o processo de criação de Orúkọ.

Iniciado como uma cena curta, a peça percorreu festivais e conquistou prêmios como “Melhor Atriz” e “Melhor Cena” no FEST&ARTE 2022 , além de receber seis periódicos no 13º FESTU. Atualmente em formato completo, “Orúkọ” une comédia, drama, música e contação de histórias e agora ganha ainda mais sentido ao ser encenado em um território de tamanha força ancestral como Salvador. “É inegável o orgulho de apresentar este espetáculo na Bahia, o estado com a maior proporção de pessoas negras em nosso país. É uma experiência incrível, de grande satisfação e responsabilidade. Além disso, transcender as fronteiras do Rio de Janeiro é sentir que essa peça pertence à cultura de uma maneira mais ampla”, afirma Hilda.

O espetáculo traz o problema sobre o apagamento dos nomes de pessoas negras no Brasil, resultado da queima dos arquivos da escravidão ordenada por Ruy Barbosa de Oliveira, em 1890. Essa destruição impediu a responsabilização por crimes e rompeu os vínculos dos ex-escravizados com suas origens, famílias e histórias. “Tomar consciência de quem somos nos faz questionar as imposições feitas, o silenciamento sofrido, o apagamento de nossos nomes, de nossa cultura”, ressalta Hilda.

O ponto de partida do espetáculo é a história da propriedade de Nossa Senhora do Rosário, muito presente nos ternos de Congada. A peça costura relatos e narrativas cotidianas, sempre levantando a mesma questão: “Qual a importância do nome das coisas?”. Para Hilda, a reflexão vai além da nomeação em si — trata-se de compreender o significado que atribuímos a ele. “Por que alguns nomes merecem ser lembrados e outros não? Quem faz essa distinção? Estes são questionamentos que me fizeram refletir sobre o que realmente é importante” , conta.

Com direção de Tatiana Henrique, pesquisadora de oralidades africanas há mais de 20 anos, e dramaturgia de Mateus Amorim, a obra pretende despertar no público a consciência sobre os efeitos do apagamento cultural e a potência da ancestralidade. “Espero que o público perceba que todas as histórias são importantes. Que o apagamento de diversas culturas aconteça todos os dias de forma sutil dentro de nossa sociedade. Apagar uma cultura é sumir com a identidade de um povo, é retirar dele o direito de conhecer e celebrar suas origens, nomes, sua existência. Que devemos refletir sobre a importância de cada encontro, de cada nascimento e de cada renascimento em nossas vidas. Que cada um de nós tenha o direito de existir como é, e celebrar seu orúkọ”, conclui. Hilda.

SERVIÇO
Espetáculo “Orúkọ” – Festival IYÁS – Festival de Arte de Mulheres Negras
Data:
23 de julho (quarta-feira)
Horário: 15h
Local: Teatro Gregório de Mattos – Praça Castro Alves, s/n – Centro, Salvador – BA
Entradas: R$ 20 (inteira) | R$ 10 (meia)
Venda online: linklist.bio/festivaliyas

Atividades complementares com Hilda Maretta:
– Oficina “Ser Substantivo Próprio”: 23/07, às 8h
– Mesa “Poéticas e Estéticas de Mulheres Negras”: 24/07, às 14h.